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quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Como escrever um memorial descritivo artístico?


Todos sabemos que participar de editais requer não só um bom trabalho ou uma boa proposta para ser inscrita como também requer certas habilidades como a redação de um currículo sucinto, a organização de um portfólio eficaz e um memorial descritivo que explique com precisão do que se trata o trabalho.

Dentro desse desafio a Galeria Grazini traduziu em seu blog este excelente texto que muito vai nos
ajudar, escrito originalmente pelo site inglês Artquest, e que segue abaixo:

"Introdução

O memorial descritivo artístico é uma pequena redação sobre seu trabalho, prática artística e outras preocupações intelectuais mais amplas. Deve atuar como uma introdução para a prática artística como um todo, destacando em linhas gerais, os conceitos, motivações e processos de seu trabalho. Numa declaração mais longa, já pode-se detalhar sobre obras específicas.

O memorial descritivo deve dar ao leitor uma melhor compreensão de onde sua prática e seus interesses vêm, suas influências pessoais ou de seu trabalho e apoiá-los na interpretação sobre o que você faz. Você vai precisar de um memorial descritivo artístico para a maioria das inscrições para oportunidades, para assessoria de imprensa, sites e ao abordar galerias e curadores. Escrever um memorial descritivo artístico também ajudará a focar e ordenar suas idéias sobre sua prática artística.

Conteúdo

Declarações artísticas variam e se diversificam de acordo com as práticas a que elas se destinam, sendo assim, as sugestões a seguir servem muito mais como orientações e observações, ao invés de regras rígidas e estritas.

Coisas para se pensar que podem ajudar você a escrever seu próprio memorial, algumas perguntas que você talvez possa considerar:
• Com que suportes você trabalha? O que lhe interessa sobre este tipo de trabalhos?
• Por que você trabalha nesse suporte? Existe uma relação entre o suporte e as idéias com as quais você trabalha?
• Que processos estão envolvidos no trabalho e como eles são relevantes para com as idéias que você está lidando?
• Quais temas, idéias e preocupações que você considera exclusivamente em seu trabalho?
• Existem quaisquer influências externas ou ideias, talvez fora do universo das artes, que têm influência sobre seu trabalho?
• O que liga as peças individuais do seu trabalho em uma prática artística?
• Existem teorias, artistas ou escolas de pensamento em particular que sejam relevantes para seu trabalho?
• Há uma "intenção" por trás do trabalho, o que você quer que o trabalho alcance?

Coisas que você não deve incluir num memorial descritivo são:
• Informações sobre a sua carreira como um artista
• Histórico de exposições
• Histórico de trabalho
Se requerido, estes temas devem ser incluídos em um texto biográfico em separado da sua memorial descritivo artístico. Ao escrever, inclua citações de críticas e revisões, e qualquer referência na imprensa.

Escrevê-los na terceira pessoa (o trabalho de Jane é...) ao invés da primeira pessoa (meu trabalho é...) torna-os mais fáceis de serem usados em release, e podem ser usados literalmente, se necessário, por jornalistas.

Estilo
Além de oferecer informações adequadas, a apresentação também é importante. As seguintes qualidades fazem um bom memorial descritivo artístico:

• Seja claro: use o português mais básico possível, a menos que você esteja lidando com conceitos específicos, e explique-os rapidamente. Não utilize linguagem complexa ou específica sem necessidade.

• Precisão: não disfarce o seu trabalho transformando-o em algo que não é. Uma declaração exata sobre um bom trabalho que lida com uma ideia relativamente simples, é muito melhor do que tentar fazer algo parecer inteligente cobrindo-o com hipérboles.

• Diga o que você vê: pode ser útil para se referir a qualquer qualidade física do seu trabalho em referência aos conceitos. Explique as decisões que você tomou sobre como o trabalho tomou forma e por que você o fez.

• Atenha-se ao assunto, que é a sua prática artística. O objetivo da memorial descritivo artístico é falar de uma maneira focada sobre sua prática, e não questões filosóficas ou conceitos mais amplos.

• Objetividade: o uso de superlativos e grandes afirmações ao descrever seu trabalho não vão lhe fazer nenhum favor. Tente ser objetivo ou pelo menos usar uma linguagem objetiva, ao descrever seu próprio trabalho.

Tamanho

Uma pergunta comum é: "Quão longo deve ser um memorial descritivo artístico?
Isso depende muito do objetivo da declaração. É uma boa idéia ter um memorial descritivo básico que você pode adaptar, aumentar ou diminuir à medida que precisa dela para coisas diferentes, fornecendo um ponto de partida rápida para inscrições e afins. Isso pode ser um parágrafo direto de cerca de 100-200 palavras, que poderá ser adaptado e estendido dependendo do caso."


terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Certificado de autenticidade de uma cópia fotográfica

Em 2011 publicamos aqui neste blog um Modelo de Certificado de Autoria de Obra de Arte que pode ser acessado através do link: http://sosfotografia.blogspot.com.br/2011/12/modelo-de-certificado-de-autoria-de.html

Desta vez vamos nos debruçar sobre o Certificado de autenticidade de uma cópia fotográfica, através da matéria publicada no encarte "Fine Art Fhox", pág 20, "Certificado e Tiragem". O texto diz:

"A reprodução abaixo ilustra o que o certificado de autenticidade de uma fotografia deve conter. Este exemplo vem da Fundação Pierre Verger em Salvador, que comercializa obras do fotógrafo e etnólogo francês que viveu no Brasil e estabeleceu a fundação. No acervo, mais de 63 mil fotografias e negativos produzidos por ele até 1973. Verger faleceu em 1996.

No certificado são encontrados o processo de impressão, número do negativo (quando for analógica), nome do fotógrafo e do impressor, tipo e tamanho do papel, tamanho da foto, localização, data e assinatura do emissor. Há galerias que incluem no certificado o nome do comprador.

Segundo Alex Baradel, a Fundação Pierre Verger comercializa há dez anos obras do fotógrafo. No passado as fotografias tinham séries limitadas, hoje não mais. “Os tamanhos podem variar de 30 por 30 a 1 por 1m”, informa. Entre os maiores compradores, galerias e colecionadores, mas há também os que contatam a fundação para adquirir uma fotografia para decorar o ambiente. 

Silvio Pinhatti, citado neste exemplo de certificado, é considerado um dos maiores impressores de fotografia em preto e branco do Brasil. Foi o impressor oficial do consagrado Mario Cravo Neto, falecido em 2009, e de contemporâneos como Claudia Andujar, Claudio Elizabetsky, Claudio Edinger, Maureen Bisilliat, Marcio Scavone, J. R. Duran, Miguel Rio Branco, Luis Crispino, Araquém Alcântara, Rosangela Rennó, Orlando Azevedo, Vilma Slomp, Marcos Santili, Arthur Omar, Fernando Lazlo, James Stuart, entre outros. Na opinião de Pinhatti, uma fotografia com tiragem é o ideal. “O tamanho dela deve ser rigoroso para não gerar uma nova série, porque o formato foi alterado”, diz.

Paulo Kassab, sócio da Galeria Lume em São Paulo e mestre pela escola de gestão de arte e cultura Inseec em Paris, comenta que no início a galeria trabalhava com tiragens mais altas, até 50 reproduções, mas atualmente estão entre 12 e 15 e às vezes até únicas."

Veja abaixo o que diz o certificado da Fundação:

"Certificate of authenticity

Fundação Pierre Verger (Pierre Verger Foundation) certifies that the silver print nº xxxx/x was done from Pierre Verger's original negative nº xxxxxx. This negative belongs to Fundação Pierre Verger which is the only detainer of the right of the photographer's work and conserves all of the nagatives made by Pierre Verger.

This silver print has been made by xxxxx xxxxx, in São Paulo, in 2011, following museum quality and conservation criteria.

Type of paper: Fiber paper with Selenium base treatment
Size of the paper: 30 cm by 35 cm
Size of the photo: 29 cm by 29 cm
Fundação Pierre Verger reference: P xxxxxxx/xx, Porto dos Saveiros, Salvador, Brasil (Anos 50)

Salvador, january 10, 2011

Assinatura do responsável pela certificação
Fundação Pierre Verger"

sábado, 3 de maio de 2014

Mas, afinal, o que é fotografia fine art?

Ansel Adams
No ano de 2013, a Revista FHOX lançou um encarte chamado "Fine Art Inside" falando sobre o mercado de fotografia fine art. Logo no Editorial encontramos um texto assinado por Mozart Mersquita que diz:

"A fotografia fine art pode ser vista por vários ângulos. O termo fine art, em si, gera polêmica. Define conceitos técnicos de impressão, emolduração e conservação, mas serve, subjetivamente, para expressar um modelo mais autoral ou artistico. O mercado se apropriou do termo técnico para agregar valor a novos produtos e o amadurecimento de todos os envolvidos gera uma promissora cadeia que se movimenta em torno do tema. Envolve fabricantes de impressora, papel, distribuídores, artistas de captura e artesãos da impressão, além de escolas, agentes de comercialização e compradores. Começa a se sofisticar e a querer se identificar."

Mas, afinal, o que é fotografia fine-art?

Segundo Cristiano Mascaro, "hoje em dia, mesmo com a fotografia bombando na mídia  e no mercado de artes, muitas vezes o termo "fine art" parece se referir simplesmente a um acabamento técnico mais refinado para venda a um colecionador exigente. Pode-se optar pelo faladíssimo "papel de puro algodão", suporte de impressões digitais ou ainda por uma ampliação sofisticada em papel fotográfico que tem a magia dos sais de prata. No entanto, 'fine art' parece-me uma expressão mais abrangente, que define não só a preocupação estética na criação da obra, mas principalmente seu caráter artístico, o impulso emocional e não comercial que proporcionou a decisão de se criar uma representação do mundo em que vivemos. Pode ser uma fotografia, uma pintura, uma poesia. Desta forma, cabe no termo até uma obra que não agradará a ninguém. E seguindo este reciocínio, um belo anúncio publicitário do ponto de vista estético e artístico jamais será 'fine art'."

Para Clicio Barroso Filho, "existe arte, existe fotografia, existe impressão, mas o termo 'fine art' tem diferentes significados para cada uma dessas categorias... Fine arts, ou as belas artes, abrangem as formas de arte desenvolvidas principalmente visando à estética/conceito, em vez de sua aplicação prática. Historicamente as cinco grandes belas artes são a pintura, escultura, arquitetura, música e poesia, com as artes menores incluindo teatro e dança. Hoje, nos institutos de ensino ou museus especializados em arte, frequentemente o termo 'fine arts' está associado exclusivamente às formas de artes visuais. 'Fine art photography' refere-se às fotografias que são criadas para expressar a visão criativa do artista. Esta fotografia de arte está em contraste com fotojornalismo e fotografia comercial; fotojornalismo oferece suporte visual para as histórias, principalmente na mídia impressa; já a fotografia comercial geralmente se destina a ilustrar produtos ou serviços a serem vendidos. Fotografia de arte, porém, é criada primeiramente como uma expressão pessoal do artista, mas também tem sido importante na promoção de certas causas ambientais, políticas e artísticas. O trabalho de Ansel Adams em Yosemite e Yellowstone fornece um exemplo claro. Adams foi um dos mais reconhecidos fotógrafos do século 20, e um promotor ávido do conceito de conservação ambiental e ecologia. Embora seu foco principal tenha sido a fotografia documental como arte, seu trabalho aumentou a consciência pública da beleza da Serra Nevada e ajudou a construir um apoio político adequado para sua proteção. Por outro lado, a 'impressão fine art' é um termo técnico, que tem significado abrangente, com ênfase na longevidade, conservação e preservação da obra de arte ou fotografia; a preocupação existia quando se imprimia quimicamente (com o uso dos banhos de selênio nas cópias), e certamente é importante agora, com as exigências museológicas mais recentes. Para que uma impressão seja considerada de padrão fine art, tanto os papéis (geralmente de fibras de algodão ou alfacelulose) quanto as tintas de pigmento mineral costumam ser certificados e normatizados. É importante também a expertise do impressor que, trabalhando em conjunto com o artista, vai interpretar a sua imagem, agregando valor a todo o processo. Este é sempre complementado pela montagem final, seja moldura com passe-partout de padrão conservação, seja o papel exposto com verniz ou spray de proteção 100% PH neutro. E, claro, tudo assinado e certificado!".

Para Eder Chiodetto, "pela fotografia fine art, mais do que qualquer questão técnica envolvida, imaginamos que seja a cópia fotográfica na qual o fotógrafo/artista consegue obter a expressão mais legítima e acurada desejada por ele. É a cópia onde todos os parâmetros como corte, contraste, densidade, luz, escala, tipo de papel, etc., após serem criteriosamente escolhidos, devem gerar uma cópia que tende à perfeição. Assim se faz uma cópia vintage. O fotógrafo que zela pela longevidade de sua obra deve realizar essas cópias fine art, com a ideia de que no futuro serão elas que falarão por ele."

Fonte: Encarte Fine Art Inside da Revista FHOX 2013
www.fhox.com.br/

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Como se calcula o preço de um trabalho de arte

Inserção em Circuitos Ideológicos, de Cildo Meireles, 2013
Em novembro de 2013 saiu uma matéria muito interessante na Revista Select, de autoria de Mario Strecker, sobre como são criados os valores das obras de arte. Se você está utilizando a fotografia nesse segmento, veja o que considerar na hora de fazer seu preço.

"Um grande mistério para quem olha de fora é como se faz o preço da arte. E por que uma obra pode custar R$ 100 e outra US$ 17,5 milhões. A dimensão, o material usado ou a escassez de obras do artista interferem no preço, mas razões não explicam tudo: muitas compras são feitas por impulso. É mais barato comprar obras de jovens artistas (não necessariamente artistas jovens) do que de autores com carreira estabelecida. Mais barato e mais arriscado, pois esse autor pode não seguir carreira ou não decolar. Uma pintura sobre tela costuma custar bem mais do que um trabalho em papel. Pinturas podem ser vendidas por metro linear, a partir de tabela. Quanto menor a tiragem de uma gravura ou escultura feita em série, maior o valor de cada cópia. E, principalmente, quanto mais prestigiado o artista, maior o preço. Só que prestígio não é ciência exata. Até revistas como a seLecT são, mesmo sem querer, agentes que transformam o valor da arte. Alçar uma obra à capa de um livro, catálogo ou revista é algo visto como “legitimação” e pode influir no preço, independentemente das razões editoriais ou gráficas por trás da escolha. A seLecT conversou com leiloeiros, marchands, artistas, curadores e outros profissionais da arte para tentar descobrir como são criados os valores das obras, a reputação dos artistas e as coleções."

Veja aqui um resumo do que foi dito:

- Eliana Filkenstein e equipe da Galeria Vermelho
"Multiplique o custo do material por dois. Adicione um valor pelo currículo do artista, sua participação em bienais, feiras, textos escritos sobre ele, currículo acadêmico, demanda que possa ter no mercado, e aí começamos a ter um preço."

- Aloisio Cravo, leiloeiro
"Leilão trabalha com desejo. (...) Faço a construção do preço partindo de informações de mercado, da atenção que determinado artista está recebendo no momento. (...) Eu não acho que vender uma obra pela primeira vez em leilão seja o melhor caminho. Se ela está sendo vendida em primeira mão, quer dizer que ela veio direto do artista. A melhor venda é a da galeria, que oferece um projeto de carreira para o artista, faz o posicionamento dele no mercado, pensa a longo prazo. É importante que o artista crie uma história. Não tenho nem como construir o preço de uma obra vinda diretamente do artista; não há base no mercado para avaliar seu trabalho. (...) O critério básico é a inserção do artista no mercado, seja modernista ou contemporâneo. Leilão trabalha com desejo, então as obras têm que ser do imaginário do colecionador, têm que ser cobiçadas por ele. Quais momentos desse artista são desejados? Nem todas as obras de um artista são as mais valorizadas, as mais desejadas. Quando o artista morre, é mais fácil avaliar, pois a obra dele fica fechada, então é mais fácil ver nesse contexto quais fases, quais trabalhos são mais interessantes, mais representativos. A definição de preço é feita por mim. Eu faço a construção do preço de uma obra partindo de informações do mercado, da atenção que determinado artista está recebendo no momento. Se vejo que uma obra que vale R$ 10 mil tem uma grande procura, posso colocar o lance inicial em R$ 14 mil, por exemplo. Mas não adianta o vendedor chegar para mim e falar: “Mas eu só vendo se for por R$ 50 mil”. Aí eu digo: “Então não posso fazer negócio”. Da mesma forma, às vezes um vendedor tem muita pressa em vender uma obra, quer baixar o preço e diz: “Vende pela metade”. Também não posso fazer isso, porque desqualifica a obra. Daí eu ser especializado. Eu perco a justificativa para o meu comprador do porquê chegar a um certo preço. Sou um balizador, eu tenho que ter argumentos para explicar por que construí esse preço. Não dá para eu dizer “vale R$ 50 mil” e o vendedor dizer: “Põe R$ 100 mil e vamos ver no que dá”. Não posso fazer isso. A minha condição de especialização é essa: o colecionador vai me questionar. Daí vem uma casa ter mais prestígio que outra."

- Danilo Santos de Miranda, diretor regional do Sesc SP

"A obra de arte é notória por ter seu valor atribuído subjetivamente. Não há uma associação de valores por similares no mercado, a não ser que sejam obras de um mesmo artista, então, seu preço é avaliado segundo suas próprias obras. Um conjunto de variáveis forma um valor possível para uma obra de arte: a opinião dos críticos, juntamente com a venda de suas obras, adicione a isso a superexposição de um artista ou um bom momento do criador com exposições individuais, internacionais, galerias prestigiadas, uma recente compra por um colecionador renomado, enfim, o preço de uma obra é sempre um preço possível que um bem intangível e de vigor possa ter naquele momento - porque o tempo também é um fator imprescindível para a valorização ou não da obra. Eu acredito que o preço da obra é esse ponto central para onde convergem essas variáveis. Pode ser um pensamento neutro, mas também é uma maneira democrática de deduzir que nessa seara há muitas mentes que influenciam no preço final. E se há democracia nesse processo, provavelmente também há justiças sendo feitas."


- Jac Leirner, artista
Indagada sobre a possibilidade de um artista não trabalhar com galerias Jac Leirner diz "Sim, é possível. Arte e mercado são coisas completamente diferentes, mas que tangem na circulação, nos desdobramentos de valores. São dados fundamentais para que a arte se faça presente no mundo. Mas o artista é um ser que também pode ser livre dessas amarras específicas." Segundo ela, o ideal para um artista é ter "meios para que possa ter tempo e lugar para pensar, trabalhar, experimentar. Viver bem, cercado das linguagens e parceiros que lhe cabem.". Indagada sobre preço ela diz; "Cada caso é particular, circunscrito em uma série de fatores. Existe arte de ponta, de qualidade extrema, que não chega ao mercado. E existe também arte de qualidade duvidável sendo vendida como se fosse uma joia rara. É muito comum essa discrepância."

Para acessar a matéria na íntegra acesse: link.


Fonte: Revista Select
Edição 14 - OUT/NON/2013
www.select.art.br/

terça-feira, 11 de junho de 2013

O debate entre Emerson e Robinson no final do século XIX

À esquerda, Peter Henry Emerson. À direita, Henry Peach Robinson.
"Ao longo do último quarto do século XIX, os fotógrafos e cientistas Henry Peach Robinson e Peter Henry Emerson estabeleceram um debate sobre o estatuto da fotografia que mobilizou, de forma inédita, os salões e os fotoclubes, onde geralmente eram trazidas a público as novas descobertas e debatidas as últimas tendências estéticas. Sede de importantes concursos e exposições fotográficas, os fotoclubes tornaram-se centros de divulgação e também de legitimação do pensamento científico e artístico.

O debate entre Robinson e Emerson polarizou-se em torno da definição do lugar da fotografia no contexto das artes plásticas e da sua relação com os saberes científicos da época. De modo inaugural, esses fotógrafos deram corpo a um debate acerca da natureza da fotografia que, repetidamente, haveria de voltar à cena em outras conjunturas.

O debate entre Robinson e Emerson gravitou em torno de alguns temas centrais, que são, por si, reveladores desse lugar epistemológico da fotografia, entre os quais contam: a particularidade da fotografia enquanto meio de expressão, relativamente aos materiais e técnicas que mobiliza; a relação entre fotografia e artes plásticas e, por contigüidade, entre a avaliação estética da imagem fotográfica e os cânones da história da arte; a qualificação da imagem fotográfica relativamente ao seu vínculo com o referente externo; a relação entre imagem fotográfica e as proposições científicas da época, principalmente em relação à fisiologia da percepção.

Pela primeira vez as indagações sobre o meio são formalizadas de modo sistemático, incorporando às suas premissas hipóteses teóricas originadas em outras áreas – como a física e a química –, e estéticas, convergindo várias proposições originalmente pertencentes ao ideário pictórico e literário. Certamente, o ponto de partida que ensejou as especulações de Robinson e Emerson é o da relação disjuntiva, da concepção desse hiato que separa os fenômenos naturais e os objetos culturais tanto da imagem percebida quanto da imagem representada. Parte-se, portanto, da problematização de uma questão muitas vezes negligenciada pelas correntes realistas, prioritariamente voltadas para a celebração das qualidades icônicas da imagem fotográfica.

Por meio da promoção de uma prática fotográfica direta, realizada espontaneamente, como defendeu Emerson, ou do uso da montagem e das estratégias de cenarização e de direção das personagens desenvolvidas por Robinson, ambos estavam mobilizados para obter imagens coincidentes com a imagem percebida, um programa que implicou o reconhecimento do modo de atualização dos sentidos e, por decorrência, a participação ativa do corpo na operação perceptiva. Não por acaso as divergências entre Emerson e Robinson no campo da fotografia referem-se diretamente às proposições científicas elaboradas pelos fisiologistas da percepção, à teoria do foco diferencial elaborada pelo físico e fisiologista alemão Hermann von Helmholtz, no caso de Emerson, e às proposições sobre a constituição do espaço – efetivo e diegético –, e sobre a memória, no de Robinson.

Muito embora mobilizando procedimentos técnicos distintos, esses dois fotógrafos perseguiram o ideal de obtenção de uma imagem coincidente com a imagem perceptiva. Mesmo Robinson, defensor de procedimentos francamente artificiais, como as encenações realizadas em estúdio e as montagens obtidas no laboratório fotográfico, estava voltado para a superação das deficiências do processo fotográfico que resultavam na criação de imagens de natureza distinta das imagens percebidas. Esta referência comum ao modelo da percepção é que os caracteriza como promotores de um sujeito fisiológico – imagens formadas na retina (Emerson) – e das imagens mentais, mais abstratas, porém igualmente sensíveis (Robinson). Pelas suas posições diferenciais, é possível identificar, na estética de Emerson, a promoção de um tipo de sujeito-tela, de certo modo passivo, sobre o qual viriam inscrever-se os traços do mundo externo, ao passo que Robinson cria uma imagem de origem mental, mais projetiva e produtiva, que incorpora outras determinações espaciais e temporais ao aqui e agora do instantâneo.


"Ricking the reed" de Peter Henry Emerson (1886)
Emerson

Após descartar a hipótese realista, por considerá-la falsa em relação à natureza, o fotográfo e médico Peter Henry Emerson identificou sua posição estética com a dos pintores impressionistas, preferindo, contudo, nomeá-la sob o rótulo de naturalismo: Para nós Impressionismo significa a mesma coisa que Naturalismo, mas o fato de tal palavra permitir ao artista uma interpretação tão ampla, até absurdamente ampla, nos faz preferir o termo Naturalismo, porque ele permite que a obra sempre possa ser comparada a uma Natureza padrão. (EMERSON, 1890, p. 22)

Do mesmo modo que William Turner e os pintores impressionistas, entre eles James Whistler, que o influenciaram diretamente, Emerson está envolvido com as impressões obtidas direta e instantaneamente da natureza. Tal perspectiva implica a consideração do modo como a natureza é percebida e, portanto, a valorização do corpo e dos órgãos dos sentidos – em especial do olho e da retina. Esta passagem do real – do objeto em si – para o naturalmente percebido – o objeto tal como aparece – estabelece uma distância, ou um nível inicial de abstração, entre a imagem percebida e a coisa em si e, na seqüência, entre a imagem percebida e sua representação visual. A partir deste momento, olhar uma imagem significa indagar-se sobre o modo como foi percebida e sobre os procedimentos de representação visual.

Nas suas formulações, Emerson esforça-se por manter a precedência da natureza sobre essas duas operações, criando um tipo de lastro primordial sobre o qual viriam inscrever-se as percepções e os signos. Pode-se dizer, neste sentido, que a sua modernidade está no modo como articulou as concepções naturalistas à especificidade do processo criativo.

É isto, então, que entendemos por Naturalismo: que todas as sugestões devem vir da natureza e todas as técnicas devem ser utilizadas para possibilitar a mais verdadeira impressão da natureza. (EMERSON, 1890, p. 24)

Trata-se, neste caso, de uma concepção naturalista que atribui à percepção o lugar de verdade, para o qual devem voltar-se o trabalho de arte e as representações em geral. Esta prioridade concedida à experiência sensível insere-se no contexto mais amplo da mutação radical dos balizadores que informam a prática fotográfica, o que significou o abandono dos procedimentos atualizados pela câmera escura e do que eles secretavam, em especial o estabelecimento de uma separação entre espaço exterior e interior e a configuração de um sujeito vazio.

Após enunciar seu pressuposto – “nossa proposição é a de que a imagem deve ser a transposição de uma cena como vista por um olho humano normal” (EMERSON, 1890, p. 97) e estabelecer seu objetivo – “o que objetivamos na arte é, portanto, a aparência do fenômeno” (EMERSON, 1890, p. 97) –, a atenção de Emerson dirige-se à compreensão dos fenômenos visuais, em especial dos gaps que separam a percepção efetiva de uma percepção analítica ou ideal. Nesse seu esforço de compreensão do ato de visão, Emerson sustentou-se nas mais recentes e influentes pesquisas desenvolvidas pelos fisiologistas dele contemporâneos, tais como: os fenômenos da aberração esférica e do ponto cego propostos por Helmholtz (EMERSON, 1890, p. 109); as escalas de sensibilidade do olho, elaboradas por Gustav Theodor Fechner; o fenômeno da visão binocular, estudado por Le Conte, e as teses de Hering sobre a sensibilidade do olho às cores, todas explicitadas e discutidas no capítulo central deste seu livro, sintomaticamente intitulado Phenomena of Sight, and Art Principles deduced therefrom que, na sua primeira parte, recebeu o seguinte subtítulo: Physical characters of the eye as an optical instrument.

No enfrentamento da questão fisiológica, Emerson valeu-se, principalmente, das teses sobre a natureza da percepção visual desenvolvidas por Helmholtz, em especial da sua teoria do foco diferencial, segundo a qual o ato de ver implica a eleição de uma área central da cena, percebida de modo nítido, e o ligeiro desfocamento das áreas periféricas. Após sustentar que o ponto central é o mais importante fator no estudo da visão e da arte, Emerson cita textualmente o fisiologista: “todas as demais partes da imagem retiniana, exceto aquela formada na área central, são vistas de modo imperfeito”, ao que acrescenta, “portanto, a imagem que recebemos através do olho é como um quadro minuciosa e laboriosamente finalizado no centro, porém apenas esboçado nas suas margens”. (EMERSON, 1890, p. 102)

Na sua versão fotográfica, a suposição de Helmholtz transformou-se em procedimento estético. Empenhado em obter uma aproximação máxima entre a imagem ocular e a imagem fotográfica, Emerson propõe que também as fotografias devessem apresentar foco apenas na região central e margens ligeiramente desfocadas.

A esses critérios formais, Emerson acrescentou uma série de outros argumentos com o objetivo de salvaguardar a especificidade e a autonomia da fotografia frente às iconografias tradicionais. No contexto da sua concepção de fotografia direta, a câmera fotográfica será tomada como uma espécie de caixa preta inviolável, do mesmo modo que a chapa impressionada, à qual nada deve ser acrescentado ou removido. Dessa maneira, a garantia de especificidade e originalidade do meio está no respeito à lógica operativa do aparelho, sempre concebido no seu formato convencional.

Emerson enumera os seguintes critérios, todos compatíveis com os critérios da prática fotográfica posteriormente nomeada de direta e pura e coincidentes com os princípios da imagem verídica: 1. A fotografia é um meio independente, com suas próprias características inerentes e é, potencialmente, uma grande forma artística; 2. Os controles que ela oferece são adequados para expressar a visão; 3. O efeito emocional e psicológico da fotografia se encontra na imagem sem retoques produzida pela lente, tal como registrada pelo material sensível; 4. Esse efeito não deve nunca ser estragado pelo retoque ou pela cópia combinada; 5. A composição não tem nada a ver com regras ou fórmulas (NEWHALL, 1989, p. 56).

Igualmente distante do realismo e do idealismo, a posição estética defendida por Emerson, diretamente derivada do modo de funcionamento da visão, entra em colapso, corroída exatamente onde parecia mais sólida, nos seus pressupostos científico-fisiológicos. Após difundir ampla e entusiasticamente suas teses, tendo conquistado, nesse itinerário, um enorme contingente de adeptos, Emerson fez uma retratação peremptória das suas posições, mantendo-se por vários meses afastado da cena social e cultural. Em um panfleto tornado público em 1891, intitulado The death of naturalistic photography, desilude-se com as possibilidade científicas da fotografia, vista como um meio que conta com recursos por demais limitados e que não oferece as possibilidades de controle e de plasticidade que desejava.

Estavam delineados, contudo, os parâmetros estéticos da fotografia direta e pura, que viriam a exercer uma forte influência sobre o movimento pictorialista em sua versão menos intervencionista e, posteriormente, sobre as posições modernistas defendidas por Paul Strand e Alfred Stieglitz no pós-guerra.


"Fading away" de Henry Peach Robinson (1858) 
Robinson

As impressões compostas realizadas pelo pintor e fotógrafo Henry Peach Robinson são o resultado de uma criteriosa montagem, no laboratório, de vários negativos tomados individualmente. Obedecendo a um estudo preliminar, esses negativos, gerados em diferentes momentos e lugares, são ampliados um a um, de modo a compor, ao final, uma cena aparentemente prosaica.

Essas montagens, que obtiveram enorme repercussão nos salões europeus de fotografia entre as décadas de 1860 e 1880, representavam cenas alegóricas e personagens literárias, freqüentemente apresentadas de modo moralista. Na mesma direção do sueco Oscar Rejlander, seu predecessor e inspirador, as imagens de Robinson trazem a marca da estética difundida nas academias de arte, o que lhes valeu as designações de classicistas e de fotógrafos-artistas.

Historicamente empregadas com o intuito de minorar os efeitos ocasionados pela baixa sensibilidade e pelo reduzido contraste do material fotográfico, que inviabilizavam, por exemplo, o registro numa única chapa das altas e baixas luzes de uma cena, o emprego da montagem estendeu-se, com Robinson, a situações mais complexas, como a síntese de vários instantes e a obtenção de perspectivas impróprias ao aparelho fotográfico.

De natureza conceitual e técnica, as operações que envolviam a realização das impressões compostas “perfaziam as mesmas operações da mente” (CRAWFORD, 1979, p. 55) –, como observou o historiador Willian Crawford a respeito das impressões compostas realizadas por Rejlander –, na seleção e na disposição dos elementos percebidos, além de possibilitarem o controle tonal dos elementos individualmente retratados. O uso dessas impressões facultava igualmente a Robinson corrigir as distorções perspécticas ocasionadas pelo aparelho fotográfico , conferindo às imagens fotográficas as mesmas propriedades visuais das cenas e, o que é original, constituindo-as de modo a que também elas operassem por saltos, associando imagens originadas em diferentes momentos e lugares, à semelhança das imagens mentais.

A edição de imagens tomadas em diferentes momentos e lugares permitiu a Robinson interferir diretamente na natureza do código e na instantaneidade da tomada, criando a possibilidade de modulação sobre os vetores espaciais e temporais da representação.

Robinson não se furtou a alterar os procedimentos fotográficos habituais com vistas a intensificar o realismo das suas imagens, segundo uma concepção realista de viés experimental, referida à aparência final da imagem. Em seu livro Pictorial Effect in Photography, publicado em 1869, Robinson diz:

O fotógrafo jamais deve permitir que sua criatividade o leve a representar, através de truques, qualquer cena que não se encontre na natureza. Se ele o fizer, está violentando sua arte, porque sabe-se que o resultado final representa um objeto ou coisa que existiu por um período de tempo diante da sua câmera. Não obstante, todas as formas de artifício, truque ou prestidigitacão estão à disposição do fotógrafo, de modo que eles pertencem à sua arte e não falseiam a natureza. (apud CRAWFORD, 1979, p. 56-57)

Tal versão do realismo, que parte das aparências e convoca as potências do falso, possibilitou-lhe investigar as possibilidades técnicas e expressivas do meio sem preconceitos, elaborando novas sintaxes visuais e relacionando a fotografia a outras práticas artísticas. Esse projeto, que teve por fim investir as fotografias de Robinson das mesmas qualidades formais e também das mesmas propriedades da cena real, combina elementos singulares do realismo e do idealismo, traduzidos na sua intenção de manter-se fiel aos fatos, e uma igual preocupação com o modo de funcionamento da mente. Existe em comum nessas formulações uma prioridade conferida ao elemento intelectual, manifesta na ênfase conferida ao elemento subjetivo na apreensão do entorno, prioridade que se traduz esteticamente na mobilização de procedimentos abertamente intervencionistas e artificiais.

Ao acontecimento, Robinson interpõe a análise desse acontecimento, sua contextualização relativamente a outros acontecimentos, contíguos ou afastados, e a sua interpretação subjetiva, referida não mais aos estímulos visuais, mas ao trabalho da mente, também corpóreo. Essas proposições encontram sua formulação estética nas determinações múltiplas e diacrônicas das impressões compostas. Não por acaso, dentre as contribuições científicas da época, proporcionadas principalmente pelos fisiologistas, Robinson identificou-se especialmente com as concepções correntes sobre a natureza do espaço extensivo e sobre o aspecto associativo do real.

Robinson foi, em verdade, um artista conceitual que concebeu previamente suas imagens e realizou-as em concordância com princípios intelectuais. De modo bem diverso do pretendido por Emerson, para quem Robinson era um “pretensioso e seu livro a quintessência de falácias literárias e anacronismos na arte” (NEWHALL, 1989, p. 55), seus tableaux-vivants precederam e de certo modo anteciparam as encenações teatrais e as instalações realizadas atualmente por influentes artistas, do mesmo modo que sua concepção do trabalho artístico como produção de artifício que pode e deve associar procedimentos da poesia, do teatro e da fabulação mítica antecipa, do ponto de vista da lógica da produção imagética não-verídica, o hibridismo e a crescente virtualização recorrentes no campo das práticas artísticas contemporâneas.

Ainda que de modo tímido, essas proposições começam a anunciar um tipo de flexibilização do ato de olhar, cada vez menos referido às condições empíricas e à presença de um referente preexistente. A visão, mais do que o olhar, constitui o território de experiência desse sujeito. Encarnada, irremediavelmente atada ao corpo, essa visão que se descola da retina tem um papel fundamental no processo de conformação do sujeito moderno. A abstração do ato de olhar implica um distanciamento da imagem retiniana e, no contexto da história da arte, o abandono dos projetos estéticos fundados primordialmente nos estímulos sensoriais, como o de Emerson e o dos impressionistas. Uma tal passagem pode ser comparada à que foi realizada no século XX pelos movimentos artísticos de vanguarda, como o cubismo e o surrealismo, e também pela arte como idéia de Marcel Duchamp e pela arte conceitual da década de 1960.

No decorrer da segunda metade do século XIX, os fotógrafos-cientistas Edward Muybridge, Etienne-Jules Marey e Albert Londe, tomando partido das recentes tecnologias dos filmes, puderam decompor o movimento em vários instantes, revelando momentos da trajetória dos móveis que são vedados à percepção direta. De modo semelhante, em muitos aspectos, aos trabalhos realizados por Robinson e por Rejlander, esses fotógrafos-cientistas criaram uma estética fotográfica em que contava uma crescente abstração da visão. Ao revelarem cenas e intervalos temporais imperceptíveis ao olho, suas imagens situam-se na fronteira do até então invisível. Dessa vez, de uma invisibilidade imanente."

Fonte: "Passagens da Fotografia" - Antonio Fatorelli

terça-feira, 21 de maio de 2013

Fotografia: arte e mercado em expansão

"Back" (1994) de Miguel Rio Branco

Prá variar um pouco, aqui estou eu às voltas com meus recortes de jornais, anotações em papel, revistas velhas... fazendo uma espécie de triagem do que é que vem para o blog e o que é que vai para o lixo.

Este texto de Rubens Fernandes Junior é antigo, mas infelizmente não posso precisar a data. Saiu publicado num jornal sobre a SP-Arte e, como tudo o que ele escreve, impossível simplesmente amassar e jogar e esquecer.

Uma busca no Google não apontou para nenhum documento, então lá vou eu copiar cada palavra para que nada se perca. Lá vai:

"Podemos afirmar que a fotografia no Brasil passa por um momento excepcional, pois tem espaço garantido para sua divulgação, publicação e pesquisa, além de experimentar uma situação completamente nova: a existência de um mercado, ainda tímido, mas em plena curva ascendente. A fotografia tornou-se um dos meios privilegiados da arte contemporânea ao longo das últimas três décadas, e tem se legitimado como uma manifestação que desperta enorme interesse naqueles que procuram formas alternativas de investimento.

Se olharmos para o mercado internacional, que tem mais tradição em relação à aquisição e comercialização de fotografias, o grande impulso iniciou-se nos anos 80, quando o Getty Museum, de Los Angeles, adquiriu importantes coleções, quando preparava-se para celebrar, em 1989, os 150 anos do advento da fotografia. Esse processo de aquisição é considerado um dos momentos históricos de ruptura, pois tanto a Sotheby's quanto a Christie's, desde então, passaram a incorporar a fotografia com mais frequência e naturalidade em seus leilões.
Fotografia "99 Cent II Dyptychon" (1999) de Andreas Gursky
Mas, o que comprar e como comprar? Essa tem sido a grande dúvida para aqueles que vêem e acompanham as tendências do mercado de arte, e têm conhecimento de que a fotografia vem sendo cada  vez mais cultuada e adotada como uma das formas de expressão favoritas dos artistas contemporâneos. Ano passado, tivemos, em dois momentos diferentes, situações aparentemente opostas em relação às tendências do mercado. Primeiramente, vimos uma fotografia do americano Edward Steichen (1879-1973), denominada Pond-Moonlight, de 1904, formato 41x48cm, estabelecer um recorde no valor de vendas, ao ser adquirida por US$ 2.928 milhões via leilão da casa Sotheby's, em fevereiro; e alguns meses mais tarde, a fotografia 99 Cent II Diptychon (2001), de grande formato, assinada pelo artista alemão contemporâneo Andréas Gursky, foi adquirida por US$ 2.480 milhões. (...) Meses antes já havia sido vendida uma imagem da mesma série, também num leilão da Sotheby's, em Nova York, por US$ 2.256 milhões.

Comportamento estranho? Parece que não, pois a primeira vista está disputando um tipo de mercado voltado mais para a raridade da imagem e sua importância na história da fotografia, e a segunda está participando do mercado de arte contemporânea. Com isso, talvez possamos entender melhor o espectro desse amplo mercado, onde raridade, genialidade e originalidade são os principais elementos que determinam o preço de uma obra e o interesse que ela pode despertar no comprador.

No Brasil, várias iniciativas isoladas nas últimas décadas, capitaneadas pelas galerias de São Paulo e Rio de Janeiro, tentaram de alguma forma instituir um mercado para a fotografia nos mesmos moldes das artes visuais, mas só recentemente é que podemos perceber uma tendência, que de algum modo acompanha o movimento internacional, de valorização da linguagem fotográfica enquanto expressão, linguagem e documentação. A formação das coleções Pirelli-Masp de Fotografias, do MAM-SP, do Instituto Moreira Salles, e iniciativas particulares como as coleções Joaquim Paiva e Gilberto Chateaubriand, entre outras, provocaram nas instituições públicas e privadas e nas galerias a necessidade de entender melhor a fotografia como uma das formas de compreensão da cena contemporânea, onde cada imagem é um fragmento cultural da maior importância, e estimular sua aquisição e circulação como objeto de interesse.

"Sacrifício V" (1989) de Mario Cravo Neto
Por outro lado, podemos afirmar que não há predominância de estilos ou tendências artísticas. Desde o final dos anos noventa, os principais artistas que se destacam, inclusive no mercado internacional, são Mario Cravo Neto, Rosângela Rennó e Miguel Rio Branco. Isso estimulou o mercado da arte contemporânea, mas também despertou o interesse nas fotografias produzidas em outros períodos. Podemos apontar para algumas tendências do mercado: um especial interesse por algumas obras produzidas no século XIX; um forte interesse na fotografia brasileira produzida a partir dos anos quarenta, entre os quais destacamos Geraldo de Barros, Thomaz Farkas, Pierre Verger, German Lorca e muitos outros; e um interesse especial na fotografia contemporânea, sintonizada com a arte contemporânea, seja nos temas desenvolvidos seja nos procedimentos artísticos. Aqui podemos destacar os nomes de Cássio Vasconcellos, Vik Muniz, Rochelle Costi, Eustáquio Neves, Rogério Canella, Caio Reisewitz, entre outros.

Nas fotografias históricas vale lembrar que o melhor investimento são as denominadas cópias vintage, ou seja, cópias de época produzidas a partir de uma matriz original. A aquisição pode ser intuitiva, intelectual, conceitual, mas como dica, em primeiro lugar, deve-se apaixonar pela imagem, e depois verificar a textura do papel, o tom das cores, a luminosidade e a profundidade. Sempre a paixão e a qualidade devem ser prioridade para qualquer compra, mas também é importante verificar a tiragem, a técnica de impressão, que garante a durabilidade da fotografia, a data e a assinatura.

Em relação à fotografia contemporânea, a tendência é a tiragem baixa, e os artistas trabalham a cópia como se ela fosse uma peça única. Pode parecer paradoxal, mas hoje, parte dos artistas que trablham com a fotografia busca em cada cópia uma certa unicidade que diferencia, mesmo que minimamente, uma da outra. O projeto estético contemporâneo, aquilo que denominamos de fotografia expandida, é o resultado dos diferentes procedimentos desenvolvidos pelo artista, que busca a diversidade sem limites através de múltiplos processos. A produção contemporânea se confirma e se mostra como uma apaixonada experiência pelo fazer, através do hibridismo entre os processos de produção e de uma permanente contaminação visual, que balançam a clássica certeza da imagem fotográfica. Essas novas sínteses e combinações apontam cada vez mais para um entrelaçamento dos procedimentos das vanguardas históricas, dos processos primitivos, alternativos e periféricos, associados ou não às novas tecnologias.

Vale ressaltar ainda que a presença da fotografia no mercado de arte contemporâneo não apenas demonstra seu crescimento desde os anos noventa, acompanhando a explosão do mercado da bolha pontocom e da presença de jovens e ativos executivos, mas aponta um caminho irreversível de valorização do poder e da presença da imagem em nossas vidas onde se fundem o valor de mercado e o valor cultural."

Rubens Fernandes Junior é pesquisador e crítico de fotografia, diretor e professor da FACOM-FAAP.

Fonte: Jornal SP-Arte (sem data)

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

A fotografia como ícone e como índice

"Isso não é um cachimbo" - René Magritte (1926)

Hoje, lendo um texto chamado "Cinema" de autoria de João Luiz Vieira, vi uma explicação muito clara sobre um tema recorrente quando o assunto é fotografia: o fato da fotografia ser entendida como ícone e como índice.

O texto, na verdade, procura analisar por que o cinema está, em geral, associado à chamada impressão de realidade, algo que "se configurou como a característica que mais tem ocupado os estudiosos e teóricos do cinema na explicação do poder ilusório daquela então nova arte. O que concorre para essa impressão de realidade? Por que o cinema ainda tem esse poder tão forte, que definiu mesmo sua vocação para a representação naturalista"?

Para responder a essa pergunta o autor recorre àquilo que veio antes: a fotografia. Vejam o que ele diz:

"No capítulo I de "O discurso cinematográfico: a opacidade e a transparência", Ismail Xavier (1984) procura a síntese de algumas respostas para essas perguntas olhando para as características básicas das imagens fotográfica e cinematográfica. Citando a realizadora (e coreógrafa) russa radicada nos Estados Unidos Maya Deren e o filósofo e semiólogo Charles Sanders Peirce, Xavier esclarece a dualidade fundamental que caracteriza, num primeiro momento, a imagem fotográfica. Seguindo a classificação proposta por Peirce, tal imagem pode ser definida, ao mesmo tempo, como ícone e índice em relação ao que ela representa, em relação ao seu referente. 

A qualidade icônica da fotografia diz respeito ao fato de que, ao ser percebida visualmente, a imagem apresenta algumas propriedades em comum com a coisa significada, alguma semelhança. Nesse sentido afirma-se que a fotografia de um cavalo parece um cavalo porque nela reconhecemos o animal, vemos suas patas, o formato de sua cabeça, a crina. Mas ela não é um cavalo e sim uma imagem, prevalecendo aqui o critério de similaridade. Nesse sentido, podemos afirmar então que a imagem fotográfica seria parecida, por exemplo, com outros tipos de imagem, como o desenho, gravura ou pintura, desse mesmo cavalo.

Só que na fotografia há uma diferença fundamental que introduz o segundo aspecto da imagem fotográfica, ou seja, a sua indicialidade. Devido aos processos técnicos de registro, a fotografia é um signo que se refere ao objeto que ele significa por ter sido realmente afetado por esse objeto, ou seja, é o objeto que cria a sua própria imagem pela ação da luz sobre o material sensível. Ao contrário do desenho, ou da pintura, ou de uma gravura qualquer, a fotografia é afetada diretamente pelo próprio objeto (XAVIER, 1984). É claro que tal constatação hoje é datada na medida em que estamos falando aqui de uma tradição fotográfica iniciada ainda no século XIX, caracterizada pela presença real de qualquer objeto diante da câmera. A imagem resultante era uma prova da existência material desse objeto, apontava para a sua existência. A fotografia de um cavalo era sempre daquele cavalo específico.

Hoje podemos produzir também uma imagem digitalizada, de síntese, virtual, com o mesmo coeficiente de realidade apresentado pela fotografia, sem qualquer necessidade de referencial concreto diante de uma câmera. 

Essa qualidade de ser simultaneamente um ícone e um índice é que vai se constituir no aspecto fundamental que marca a diferença entre a imagem fotográfica, obtida através de um processo mecânico, e outros tipos de imagens produzidas pela mão humana, como o desenho, a pintura, a gravura. A imagem fotográfica, então, se caracteriza pela fidelidade de reprodução de certas propriedades visíveis de um objeto. Sua imagem, dessa forma, pode ser encarada sempre como um documento que aponta para a preexistência do elemento que ela significa e que pode ser um objeto real, pessoa, animal, qualquer coisa. Mesmo com as diversas possibilidades de alteração existentes desde o advento da fotografia, ainda é comum, por exemplo, a afirmação de uma verdade visual que dela se utiliza como prova incontestável de presença e realidade."

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Você sabe o que é uma instalação?

Instalação "Entre os olhos e o deserto" - Miguel Rio Branco (1997)
No mundo das artes visuais, onde a fotografia já tem seu lugar assegurado, vemos hoje variações de apresentações que as tiram do seu suporte tradicional - em geral uma folha de papel bidimensional impressa afixada sobre algum suporte e pendurada na parede - para ganhar novas formas. Quantas vezes ficamos em dúvida se aquilo que estamos vendo é apenas uma projeção, um objeto fotográfico ou uma instalação...

Hoje me deparei com uma explicação muito clara sobre o que seria uma instalação, então seja para você se inspirar e fazer a sua ou seja apenas para você identificar na galeria se aquele trabalho que você está vendo é ou não uma instalação, leia o texto abaixo e reflita.

Instalação "8 cortes" - Carl Andre (1967)
"Esta obra é uma instalação, nome usado para designar trabalhos de arte que dependem diretamente do espaço físico onde se encontram. A experiência desse tipo de trabalho inclui a experiência do lugar onde ele está instalado. Seu sentido surge das relações assim estabelecidas, ou seja, de como os objetos interferem na percepção do espaço e de como o espaço interfere na percepção dos objetos. De modo geral, toda instalação implica no conceito de montagem, pois é a justaposição entre determinados materiais e componentes arquitetônicos, como chão, paredes e teto."

Nesta fotografia que mostra o trabalho "8 cortes" de Carl Andre, "vemos blocos de concreto organizados em um grande retângulo com várias áreas vazias. Essas áreas são percebidas como cortes porque recortam visões do piso e incluem-no  na totalidade do trabalho. O chão deixa de ser um fundo neutro ou mero suporte para a obra e passa a ser um dos elementos envolvidos na sua articulação. A instalação de Carl Andre nos faz ver o próprio lugar onde ela foi montada e, com isso, propõe que tomemos consciência de que a arte é quase sempre vista dentro de contextos institucionais, sejam museus ou galerias, que condicionam os valores atribuídos a ela."

Frente a isso, ao ver uma obra numa galeria de arte, pergunte-se:
- a montagem está envolvida na apresentação do trabalho?
- e o ambiente? ele também compõe a obra ou não?
Se a resposta for sim, trata-se de uma instalação.

Fonte: As citações entre aspas foram extraídas do CD-Rom do Curso de Pós-Graduação em Artes Visuais: Cultura e Criação do SENAC, 2005.

Veja mais na Enciclopédia Itaú Cultural de Artes Visuais: verbete instalação.

domingo, 9 de dezembro de 2012

A fotografia na 30ª Bienal de Arte de São Paulo

Hoje termina a 30ª Bienal de Arte de São Paulo, denominada "A Iminência das Poéticas". A Revista Bravo!, na sua edição 181, publicou uma matéria de autoria de Marcelo Rezende chamada "Sob a perspectiva das estrelas" explicando que a mostra foi dividida em constelações mostrando como todos os 110 artistas selecionados em 2012 se relacionam com a arte conceitual de alguma forma.

Em tempos em que tudo pode ser arte, a revista salienta que "Uma das estratégias promovidas pela 30a Bienal de São Paulo é redefinir o próprio universo da arte. Muitos criadores contemporâneos defendem o fim de hierarquias e fronteiras. Tudo pode ser arte, todos podem ser artistas e, com base nesse ponto, é possível observar o passado com outros olhos. Um cantor, um poeta, um cineasta ou um grupo de arquitetos viram então prováveis candidatos a exposições e bienais. É como olhar para alguma coisa já conhecida, mas de um ângulo totalmente diferente. Alguns casos assim foram mostrados ao público brasileiro, como o poeta e artista chileno Diego Maquieira, a cooperativa arquitetônica do Ciudad Abierta, também do Chile, o cineasta canadense Guy ­Maddin – com sua atração pelos fantasmas do cinema mudo – e ainda o alemão August Sander (1876-1964), um dos gênios da fotografia do século 20."
Como o foco de interesse deste blog é na fotografia, vamos ver quem foram os nomes mais expressivos que estiveram por lá:
Alair Gomes
A poética de Alair Gomes tem o corpo masculino como tema e é tecida com base em noções de ritmo e relações formais. Classificando e intitulando suas séries como se fossem peças musicais, Gomes mostra jovens em poses que aludem a esculturas clássicas. Embora o cunho homoerótico seja evidente, seus conjuntos não fazem um discurso em defesa da homossexualidade. As fotografias posadas ou tomadas a distância testemunham o desejo compulsivo do artista e espelham a realidade por ele idealizada.
Alberto Bitar
Alberto Bitar fotografa pessoas, paisagens, cidades, situações e contextos como uma testemunha da existência. Explorando os limites técnicos do meio fotográfico na construção de uma linguagem visual de sofisticada simplicidade, o artista faz das modificações luminosas e das variações na velocidade de captação, um modo particular de registrar e evidenciar ocorrências fugazes. Questionando a noção do registro objetivo da imagem em fotografias ao mesmo tempo impactantes, estranhas e surpreendentes, Bitar cria uma obra plástica que não almeja ser um reflexo do mundo, mas uma via de exposição das tensões e dos paradoxos que se instauram em nosso cotidiano.
Alexandre Navarro Moreira
Alexandre Navarro Moreira desenvolve ações independentes em que as ideias de seriação, disseminação, apropriação, colaboração, produção e compartilhamento de informação são evidenciadas pelo uso indiscriminado de fotografias oriundas de diversas fontes. Seu trabalho Apócrifo (2001–) ganha forma em cartazes, reproduzindo retratos de pessoas e inseridos diretamente na paisagem das grandes cidades. Colados em muros e tapumes onde geralmente estão cartazes de eventos e espetáculos, a apresentação de Apócrifo ocorre em um nível concreto de integração do objeto artístico com o contexto cotidiano das grandes metrópoles.
Alfredo Cortina
Um dos fundadores da radiofonia moderna venezuelana, Alfredo Cortina foi roteirista de rádio e televisão e concebeu variados programas ficcionais e culturais. Frequentador de um grupo de intelectuais e artistas de vanguarda, realizou, discretamente, uma obra fotográfica enigmática e poética, tendo como única modelo sua esposa – a poetisa Elizabeth Schön. Utilizando-se de um sistema compositivo baseado na repetição, interrogou a noção de paisagem e sublinhou o pitoresco e a estranheza de uma realidade aparentemente neutralizada.
Andreas Eriksson
Andreas Eriksson trabalha com diversos meios diferentes, como pintura, fotografia, escultura e instalação. Enquanto suas fotografias frequentemente retratam a natureza em um estado de suspensão, suas pinturas contrabalançam essa fragilidade com uma pincelada densa que enfatiza a profundidade e o movimento de determinada cena. Suas obras frequentemente trazem algo de tragédia melodramática, oscilando entre a beleza e o caráter efêmero da matéria na natureza. Em produções mais recentes, fotografia e pintura se unem e Eriksson cria dípticos e trípticos que justapõem ilusão e realidade e suscitam questionamentos sobre a relação do homem com a natureza.
August Sander
Ao fotografar indivíduos de diversas esferas sociais – desde a vida camponesa oitocentista até a sociedade capitalista –, August Sander criou um catálogo tipológico do povo alemão com mais de seiscentas imagens, que constituem sua mais importante obra: People of the 20th Century[Pessoas do século 20]. Transcendendo a noção de registro e revelando um país em mutação, o trabalho do artista evidenciou estruturas hierárquicas e criou um retrato enciclopédico e sistemático da sociedade de sua época.
Bas Jan Ader
Em tom ora dramático ora cômico e desprovidas de contexto narrativo, as performances de Bas Jan Ader evidenciam a noção de vulnerabilidade. Simples, misteriosas e implacáveis, as experiências às quais o artista se entrega parecem indagar o sentido da vida e da existência humanas. As circunstâncias de sua morte – desaparecido no Oceano Atlântico ao tentar atravessá-lo com um veleiro para realizar In Search of the Miraculous [Em busca do milagroso] – contribuíram para a mística em torno dele, como um artista que levou às últimas consequências as indagações sobre o significado e a perenidade da vida.
Dave Hullfish Bailey
Dave Hullfish Bailey se interessa pela precariedade da sociedade civil e suas superestruturas. Suas fotografias, desenhos e esculturas podem ser entendidos como uma pesquisa sobre meios sustentáveis de subsistência ou como uma reorganização sociopolítica em que propostas arquitetônicas, urbanísticas e de design discutem meios de sobrevivência em centros urbanos e rurais. Considerando que somos determinados pelas estruturas política, social e cultural nas quais vivemos, o artista fomenta a reflexão sobre o que se move entre elas e elabora uma sociedade construída de forma que todos seus elementos sejam igualmente importantes.
Edi Hirose
 No ensaio Pozuzo, Edi Hirose apresenta a região central da selva alta peruana onde, há mais de meio século, vivem descendentes de imigrantes da Áustria e da Alemanha. As imagens registram cenas cotidianas da comunidade e, apesar de imporem-se pela captura objetiva, fazem sutis digressões que evidenciam a subjetividade do artista. Como um testemunho das relações que manteve com tal comuna, Hirose constrói um retrato visual do lugar e de seus habitantes de maneira contemplativa e francamente pessoal.
Erica Baum
A obra de Erica Baum revela sua empatia pela palavra e pela imagem impressas – enquanto suas fotos denotam uma característica tipográfica, o retrato granulado dá destaque à materialidade do papel. A fonte para sua fotografia está em livros encontrados em sebos e antiquários. O esforço da artista é criar digressões do conteúdo e projeto gráfico dos livros – um processo que muitas vezes culmina em descobertas que lembram a tradição da poesia concreta. Baum alega que sua obra se origina “da tradição da fotografia direta de rua, com um olhar para o trabalho de Walker Evans, Atget, Brassaï, e outros artistas que pontuaram suas paisagens com linhas de texto achado”.
​Hans Eijkelboom
Hans Eijkelboom retrata as ruas de diferentes cidades do mundo identificando padrões para criar suas séries de imagens. A disciplina e o rigor de suas observações lembram aspectos de estudos antropológicos. Ao criar sistemas e estabelecer critérios em meio ao caos das ruas, o artista confronta noções de identidade e a relação entre individualidade e coletividade. Em um processo contínuo, que já dura duas décadas, o artista constrói combinações e repetições exclusivamente associadas a suas experiências e ao olhar apurado, formando um extenso (auto)retrato da sociedade.
Iñaki Bonillas
Partindo da fotografia, Iñaki Bonillas produz obras com desdobramentos poéticos de conteúdo pessoal e intimista. Tendo como referência as origens da fotografia e das estéticas conceituais, expande os elementos constitutivos do meio fotográfico ao conectá-los com outros meios plásticos. Utilizando-se do discurso documental da fotografia, Bonillas justapõe imagens e cria combinações originais a partir de procedimentos quase científicos de compilação, classificação, edição e arquivamento.
Mark Morrisroe
Com uma câmera polaroide, Mark Morrisroe iniciou um percurso artístico corajoso, incorporando fotos de prostitutas a raios X de seu tórax e expondo seu corpo – e os de seus amigos e amantes – em imagens rabiscadas com dedicatórias, anotações e registros de seu cotidiano. O espírito de liberdade e descontração que ilustravam as poses acabou por adquirir uma aura de tristeza quando o artista descobriu que era portador do vírus HIV. Em seus últimos dias no hospital, improvisou um laboratório e ainda vislumbrou possibilidades de experimentação artística – transformando seus exames e raios X em séries abstratas e coloridas.
Moyra Davey
Fotógrafa e cineasta, Moyra Davey retrata interiores domésticos vazios e arranjos acidentais de objetos. As fotografias que realiza são caracterizadas não pela cena monumental, mas pela descoberta – um tubo de calefação em seu apartamento, uma estante semivazia durante a mudança de sua família ou uma caixa de cereais sobre uma geladeira. Seus filmes refletem sua paixão pela literatura – em My Necropolis [Minha necrópole], por exemplo, a artista filma o cemitério de Père Lachaise em Paris e as lápides de Simone de Beauvoir, Marguerite Duras, Gertrude Stein e Jean-Paul Sartre, enquanto uma voz discute as noções filosóficas do tempo.
Odires Mlászho
As apropriações de imagens esquecidas, empoeiradas ou escondidas dentro de livros e a sua reconstrução – de maneira a atar encontros anacrônicos – povoam a poética de Odires Mlászho. Em sua obra, o artista modifica imagens e as refotografa – transformando em colagens conteúdos visuais que parecem ter se desvinculado de sua memória. Tendo o livro como principal objeto de manipulação, o artista transforma em livros-esculturas enciclopédias, editoriais fotográficos, livros-reportagem e compêndios botânicos – oferecendo-os a uma contemplação ativa capaz de inaugurar outras formas de leitura e percepção.
Saul Fletcher
Como pontuações indiciais de uma realidade incomum, as fotografias de Saul Fletcher integram uma única e longa sequência de imagens, que registram o modo como ele percebe, recorta e recria a realidade. Transitando entre paisagens invernais e retratos de familiares ou passando por composições que reúnem pinturas, anotações, autorretratos ou cenas dos lugares onde habita, sua obra parece existir em um entre lugares – entre o que se revela e o que é apenas sugerido, entre o segredo e a confissão, entre o real e o parafactual.
Sigurdur Gudmundsson
A obra de Sigurdur Gudmundsson está baseada em desvios de significados e inusitadas aproximações entre o homem e o ambiente. Coletivamente intituladas Situations, suas fotografias guardam influência do movimento Fluxus e da arte conceitual e elaboram uma visão poética e filosófica da existência. Estabelecendo relações de equilíbrio e justaposição entre seu corpo e os mais variados objetos e contextos, o artista parece emoldurar, de maneira ao mesmo tempo dramática e bem-humorada, o embate e o equilíbrio entre natureza e cultura.
Sofia Borges
Situando o espectador em um ponto intermediário entre o que seria a fotografia e seu espaço de instauração, Sofia Borges cria um ambiente rarefeito de envolvente estranhamento – que parece colocar nossa percepção em estado de iminência e suspensão. Compostas a partir da manipulação explícita e bem elaborada de procedimentos específicos do meio fotográfico – tempo de exposição, temperatura de cor, quantidade de luz, técnica de composição –, as imagens criadas pela artista evocam uma atmosfera ao mesmo tempo distante e familiar, que embaça a fruição e nos impede de apontar com clareza se estamos diante de um instantâneo casual ou de uma elaborada abstração formal.

Studio 3Z - Ambroise Ngaimoko
Em 1971, Ambroise Ngaimoko abriu seu estúdio na cidade de Kitambo. O nome, Studio 3Z, simboliza os três Zaires: o país, a moeda corrente e o rio. Devido ao emprego de uma técnica inédita, em que dois retratos eram revelados na mesma folha usando duas vezes o mesmo negativo, o Studio 3Z ganhou reconhecimento e renome. Jovens que vieram para o estúdio lembram-se dele pela constante variação dos fundos fotográficos. Em fotos em preto e branco, Ngaimoko retratava famílias e indivíduos. Ancorados na filosofia de uma era pré-digital, em que a fotografia era muito mais um
evento orquestrado e contido que um mero instantâneo, seus retratos pintam a diversidade de personagens e manifestam a riqueza das relações humanas.

Viola Yeşiltaç
O trabalho de Viola Yeşiltaç explora os possíveis deslocamentos que se operam entre a fotografia, o desenho, a escultura e a performance, enfatizando a relação entre representação e forma. Seu trabalho é influenciado pela tradição construtivista e suas esculturas em papel frequentemente incorporam fotos de cena de filmes ou fotografias de sua autoria. A artista ajusta e dobra as folhas de papel até atingir formas que mereçam registro fotográfico. As qualidades poéticas de seu trabalho se revelam também em suas peças textuais e desenhos, que carregam exageros e transmitem uma qualidade quase cômica.

Fontes:
Revista Bravo! - Edição 181 - Setembro 2012
Site da 30ª Bienal de São Paulo - Dezembro 2012
http://www.bienal.org.br/30bienal/pt/Paginas/default.aspx